outubro 31st, 2009
Crítica sobre AQUI DENTRO AQUI FORA
Peças acertam ao apostar no risco
Montagens complementares que acontecem na rua e dentro de teatro ressaltam papel do público como colaborador ativo
LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
O espectador é imprescindível ao teatro. Os espetáculos “AQUIDENTRO” e “AQUIFORA”, do grupo OPOVOEMPÉ, pretendem ampliar essa condição do público de participante necessário à de colaborador ativo. Cada uma das duas encenações tem seus procedimentos próprios, mas ambas aspiram mobilizar a percepção dos espectadores sobre as dores de si e do mundo, sem para isso servirem-se de uma narrativa fechada para afetá-los e pressupondo que, idealmente, eles se tornem coautores das obras.
“AQUIFORA” transcorre nas ruas do centro de São Paulo. No início, as cinco atrizes distribuem capas amarelas e aparelhos de som a cada um dos espectadores. Com isso, eles passam a ser legítimos atuadores, pois andam em bloco, uniformizados, ouvindo a mesma trilha sonora e concentrando-se nos mesmos pontos, a mirarem juntos os cenários circundantes da cidade degradada.
O que eles ouvem são depoimentos de pessoas comuns, trechos de ficção literária e um discurso mais jornalístico, cuja descrição coincide com os lugares por onde se vai passando. As atrizes alternam momentos em que simplesmente guiam os espectadores -indicando quando devem parar, andar ou atentarem a algo- com outros em que propriamente atuam, ampliando a cena que se oferece aos passantes surpreendidos.
“AQUIDENTRO” ocorre em um teatro. De algum modo, tudo que foi ouvido e visto fragmentariamente na rua reaparece mais organizado enquanto tema. Agora os aventais de enfermeiras e as caixas de remédio apontam para o mal-estar da civilização. Ainda há a recusa a uma narrativa convencional e toda a ação que vai sendo tecida ocorre a partir da fricção entre as atrizes e os espectadores, vinculados por um diálogo inacabado de perguntas e interjeições lacônicas que não chegam a ser respondidas.
É bela a maneira sutil como essa dramaturgia se articula, à base de sorrisos e esgares, na relação olho no olho entre atuantes e assistentes, aqui confundidos como geradores da ação em curso.
Por outro lado, logo se explicita um discurso afirmativo, que no espetáculo da rua era menos notável, e que vai distanciar os assistentes da parceria que vinha sendo costurada.
Afinal, há uma assimetria entre as atrizes propositoras, que formulam o roteiro e direcionam sua leitura, e os receptores que, chamados a uma tomada de consciência, regridem à condição de público alvo.
A intenção de mobilizar consciências é habitual no teatro. O que é novo e interessante no trabalho do OPOVOEMPÉ é a forma dramática aberta com que faz isso, sustentada no desempenho de risco das atrizes e na imprevisibilidade do público. Já a postura missionária, implícita nessa experiência do grupo, é datada e ameaça os seus propósitos libertários. Entre esses dois caminhos possíveis, fica a boa expectativa de novas explorações.
Publicado em 24 de setembro de 2009 no jornal Folha de São Paulo.
Por: Manuela | Categoria: Análises e Críticas, Aqui Dentro Aqui Fora | Tags: Aqui Dentro Aqui Fora, fomento, opovoempé, percurso, processo criativo, são paulo, teatro |
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